
Bacharéis, mestres e doutores
Por Márcio Dederich.
Qual foi a maior distância que você correu na vida? Lembrou? E então? Passou dos 21 km? Se passou, parabéns: você é alguem que experimentou muito mais em relação às corridas que a maioria das pessoas. E o que isso quer dizer exatamente? Sei lá. Que você talvez tenha se cansado das corridas menores. Ou que você tem capacidade de ousar mais. Talvez signifique que seu treinador foi um bamba. Ou queira dizer que você curte correr mais que a média das pessoas. Ou simplesmente que você é um cara privilegiado.
Em relação a tal distância, lembra sob quais condições a correu? Jamais esquecerei, dirá você. Bom saber disso. Mas certamente ja terá ouvido alguém reclamar de ter corrido uma maratona. Do quanto é duro, mais que vencer os 42 km, treinar pra realizar o feito. Primeiro, arranjar tempo; depois, não desanimar, ter disposição pra perder um par de unhas, estourar meia dúzias de bolhas... Não é à toa que as maratonas de revezamento estão cada vez mais populares. Que implicações isso parece ter? Alguns vão alegar que o nível de exigência caiu, sendo mais fácil hoje em dia adquirir o título de "maratonista".
Qual a validade de ser um maratonista de 8 km, questionará você. Para o movimento das corridas de rua, todos são igualmente bem-vindos. Independente de distância, boa parte desses corredores tomará gosto e permanecerá correndo pelos próximos anos, quiçá pelo resto da vida. Serão assunto na família, no trabalho, no colégio, no condomínio. Em outras palavras, agentes multiplicadores. Em geral, são iniciantes que vêm de academias ou de pequenos grupos, gente que resolve começar pelo começo. A história mostra que alguns sairão daí pra encarar as ultras. Enfim, correr exige folêgo, tanto em relação as distâncias quanto em relação às idéias.
Na vida, em termos de aprendizado, quem fez bacharelado sofreu um pouquinho. Quem faz mestrado pena um pouco mais. E quem faz doutorado quase não sente dor. Nas corridas a situação é semelhante. Depois das iniciais, qualquer provinha curta, de 5 km por exemplo, fica parecendo brincadeira, o que levaria a distância maiores. No entanto - e nesse caso não importam as razões -, grandes parte dos corredores vai optar por correr pouco, normalmente provas de 10 km. São, nessa analogia, os bacharéis em corrida.
Fazer doutorado ou mestrado não deve ser obrigação pra todos. Há uma seleção natural para isso. No dia-a-dia, a maior parte das atividades impede que haja tempo para treinar com a necessária regularidade. Passando ao largo dos aspectos de patrocínio, é forçoso reconhecer que em determinadas situações a atividade física acaba sendo secundária as demais tarefas. Mas ruim mesmo é quando o indivíduo se mata de tanto correr e não tira da corrida tudo aquilo que ela oferece. Mesmo que vá longe, que suma na poeira ou se encha de medalhas, em termos de benefício esse corredor na verdade nem passará dos km iniciais. Analogamente ao aprendizado, não consegue reelaborar o que leu e muito menos enxergar com pertinência o que lhe foi oferecido. Corre com armas em riste, como se toda corrida fosse uma cruzada pessoal contra sabe-se lá o quê. Não compreendendo o contexto, confunde ator com personagem e bate em Jackson Antunes na rua porque ele fez papel de machão na novela das oito.
Quando foi que você correu pela última vez? Além da distância, que "conteúdo" teve sua corrida? Aproveitou pra conversar com alguem? Sua abordagem foi interessante? Tomara que sim. E tomara que aumentem suas oportunidades de ir mais longe, revezando ou não. Afinal de contas, nas corridas, a graça está em dar uma resposta bem-disposta às provocações da vida. Nesse sentido, bacharéis, mestre ou doutores, somos caras privilegiados.


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